quinta-feira, 25 de junho de 2015

O LABIRINTO ARDENTE

Eu não me lembro de como cheguei aqui. Minha cabeça está zonza. Não parece que estou ferido. Levanto-me. Não consigo ficar de pé. Para andar, tenho que usar as mãos também. Estou num canto com uma cama improvisada. Avisto alguém e essa pessoa diz para eu ir aonde ela está. Começo a andar. O lugar deixa o peso do meu corpo muito grande. É difícil de me mover.
Olho-me no espelho e descubro que sou uma espécie de cachorro.... Não, sou uma raposa. Reconheço as patas e o focinho. Minha pelagem é alaranjada e tenho olhos amarelos. O que está havendo aqui?
Vou até lá. É um sujeito de aparência muito estranha. Usa roupas do século das luzes. E o rosto é deformado. Não parece de um humano ou de um animal. Meu Deus, este lugar é muito quente e abafado, mas não há teto e está de noite. As paredes são feitas de pedras retangulares escuras.
- Quem é você, pessoa elegante? – eu pergunto.
- O meu nome não é importante, mas sim o que você deve fazer neste lugar.
- E o que seria?
- Você está num labirinto e não tardará para que ele se torne completamente fechado e inabitável. Vê aquela árvore lá longe? – ele aponta para lá longe no labirinto.
- O que é aquela árvore gigantesca?
- Ela é a Árvore da Mudança. Se chegar lá e comer um de seus frutos a tempo, estará a salvo. Precisa percorrer este labirinto escuro e desorientador.
Não confio nas palavras dele. No entanto, talvez eu tenha respostas se chegar lá. Antes de ir, eu faço mais uma pergunta:
- Há alguém naquela árvore?
- Ninguém está, mas não posso ter certeza do resto do labirinto. Só não se preocupe, é apenas você que está na missão de chegar até lá.
Eu parto finalmente, correndo como uma raposa experiente. O lugar é traiçoeiro e muitos pontos são confusos. Só posso ver as estrelas e a árvore lá longe, nada mais. O calor ainda piora minha concentração e parece que ele está aumentando. Estou andando em círculos, posso sentir isso. Meu temor é que eu fique aqui até morrer.
Alguns ratos pequenos andam neste lugar procurando comida, mas nada encontram. Um deles desaparece na parede. Fico espantado, pois não uma entrada para ele ter passado. Vou até lá. Ando calmamente e toco meu focinho lá. Começo a atravessá-la. Chego ao outro lado. Realmente é um lugar traiçoeiro. Penso em subir pelas paredes, mas uma força tremenda me impede. Ela começa a me puxar para o chão. Meu peso parece que dobrou ou triplicou. Está difícil de andar ou correr mais ainda. Não estava assim antes. É como se quisessem dificultar as coisas.
Exploro mais o lugar. O cheiro é muito estranho. Meu focinho não consegue diferenciar os cheiros aqui. Tento me orientar pelas estrelas, mas elas parecem mudar de posição a cada minuto. Só posso me orientar pela árvore que está visível sempre. O calor continua sendo insuportável. Já estou suando.
A minha busca me leva a uma parte em que não é possível mais ver a árvore. Há um teto e está muito escuro. Entro e minha visão demora um pouco para se acostumar com a escuridão. O calor é maior aqui, preciso andar logo. Tropeço em alguns momentos de vez em quando, há degraus aqui que me fazem subir ou descer. Minha visão noturna está melhorando.
Chego num lugar da casa em que há muito espaço. Espanto-me ao ver um lugar completamente surreal. Há escadas no teto e nas paredes. É como se a gravidade se comportasse de forma estranha aqui. Corro por elas. A noção espacial aqui é muito confusa e muitas das paredes, chão e teto são falsos. Não sei por quanto tempo conseguirei aguentar.
Tento arranhar por onde passo. Mas o concreto é muito forte e é escuro de mais para eu ver detalhes. Começam tremores. A temperatura volta a aumentar. Corro mais rápido. Chego a um local em que é possível ver o céu novamente. Saio de lá. É outro local do labirinto. Localizo a árvore. Está muito longe ainda. Sigo para lá.
O meu peso continua aumentando. É uma luta para poder ficar de pé. Continuo caminhando. Avisto vários ossos no local. Imagino que mais pessoas tentaram chegar até aquela torre onde a árvore está bem no topo. Percebo que alguns dos ossos foram roídos. Ruídos ecoam e não são de tremores. Meu faro detecta um cheiro estranho, mas de seres vivos. Ando mais um pouco, até a fonte dos ruídos. Olho pela beirada da parede.
Que visão horrível! São pequenos monstros que vejo. Carnívoros, comendo restos de ossos. São de cor escura e tem olhos avermelhados. Garras bem afiadas. Preciso passar para o outro lado do caminho perpendicular em que estou sem que me vejam. Ando calmamente. Minha respiração se acelera, meu coração dispara. Estou a poucos passos da morte se for visto.
Para minha infelicidade, sou visto pelas três criaturas. Saio correndo com elas no meu encalço. Vejo mais delas aparecendo. Algumas até estão pulando os muros, como se a força do lugar não existisse para elas. Outras aparecem de paredes falsas.
Estou numa situação muito complicada. O calor só está aumentando, assim como o peso do corpo. Os tremores voltaram mais fortes. O lugar começa a ter rachaduras pequenas. Um desses monstros me acerta e começo a cair no chão. Levanto-me rapidamente e por sorte não sou mordido na cauda.
Chego num local em que há uma espécie de rampa e ao redor dela um imenso buraco sem fundo. Ela começa a rachar e salto para não morrer. Deslizo por ela. Logo depois vem aqueles bichos também deslizando e rindo. Eles têm uma gargalhada diabólica e sádica. Estou ficando mais apavorado.
A rampa começa a desmoronar conosco. Eu consigo cair na beirada do outo lado. As criaturas caem no buraco. Nenhuma se salvou. Eu subo com dificuldade, quase escorrego por causa da força de atração poderosa. Eu consigo ir adiante. Os tremores estão piorando agora. Sinto que tudo vai desabar para o fundo deste lugar. Preciso correr.
O lugar agora tem paredes bem altas e mais claras. Há pouca luz saindo de feixes do chão, mas não iluminam muito. Não consigo ver a árvore! O meu tempo está acabando e não sei quanto falta para chegar até esse lugar. Exploro mais o lugar. A temperatura aumenta mais e continuamente agora. Estou começando a me sentir mal e com poucas forças. Tenho necessidade de continuar, pois preciso viver por um motivo que ainda desconheço. Eu sinto isso.
Volto a correr, usando minhas últimas forças. O topo das paredes começa a desabar. Lava começa a brotar do chão. Salto para não ser pego. Os tremores pioram. Tento me equilibrar. Mais daquelas criaturas aparecem. A lava pega algumas, mas outras usam restos de ossos e as jogam contra mim.
Sinto que estou perto. Vejo um lance de escadas que levam para cima. Começo a subir com o lugar todo desmoronando. Ao chegar do outro lado, vejo que estou bem de frente para a torre. Ela é bem escura e alta e não há muitos lugares para se agarrar e escalá-la. As criaturas estão se aproximando. Começo a subir.
A escalada é muito árdua. Há o peso só aumentando e o calor também. Ela também está rachando. Não posso escorregar, senão caio. As criaturas tentam subir. Por sorte, elas escorregam muito. Depois de um tempo, eu olho ao redor e vejo que o horizonte foi preenchido pela lava. Ela também está chegando à torre.
Subo mais um pouco e começo a ver que o local pelo horizonte é bem arredondado, quase como se fosse uma esfera perfeita. A torre começa a se inclinar, acelero a escalada. Meus dedos estão doendo, assim como todo o meu corpo. O suor é grande e a fadiga também. No entanto, eu devo continuar. Preciso de respostas.
Eu chego ao pé da raiz da árvore. Ela é colossal. O tronco é dourado e as folhas bem verdes. Fico fascinado com ela. Infelizmente minha alegria dura pouco, as pedras da torre começam a aquecer demais e queimam minhas patas. Salto para o tronco e subo até o topo. As folhas da árvore começam a queimar. Vejo os frutos. São alaranjados e no formato de losangos. Também começam a pegar fogo. Subo mais até o topo.
Avisto o último fruto, justo quando a torre começa a cair no magma. Corro até lá pelos galhos já secos e quentes. Pego nele e dou uma mordida sem hesitar. Nada acontece. Eu devoro-o. Espero enquanto a torre desaba. Poucos segundos para eu ser queimado na lava. Meu corpo, de repente, começa a desaparecer em faixas de luz. Eu sumo por completo quando a torre finalmente desmorona.
Estou sendo transportado para longe do local para o céu. Olho para atrás e percebo onde eu estava. Uma esfera perfeita gigante, incandescente e com um brilho de cegar os olhos. Vejo jatos de lava subirem em forma de arcos e descerem. Rachaduras luminosas surgirem e sumirem na superfície e algumas manchas escuras gigantescas.... Oh meu Deus! Era uma Estrela! Eu estava numa estrela, como isso é possível? Não sabia como não morri desde o início, mas havia dúvidas de onde eu estava. Só não sei em que estrela eu estava.
Estou voando pelo espaço sideral a uma velocidade impressionante. Minha visão começa a escurecer. Não sinto mais nada, nem cheiro nem ouço mais. Será que morri?
Acordo de repente e me vejo num local bem calmo. É um quarto e estou sobre uma cama de lençóis brancos. Percebo que estou num hospital. Olho para minhas mãos. Não sou mais uma raposa. Ai! Minha cabeça dói muito. Ela está enfaixada. Acho que sofri um acidente e não lembro.
Vejo duas crianças num sofá acordarem. Elas me vejam e se emocionam. Correm até mim.
- Papai! Papai! – as duas gritam, me abraçam.
Minha memória começa a voltar aos poucos. Eu sofri um acidente. Fui atropelado. Uma mulher chega no quarto. É minha esposa e chora de felicidade. Vem me abraçar também.
- Quanto tempo fiquei apagado?
- Uns seis dias. Ficou em coma depois de uma moto o atropelar. O motoqueiro estava bêbado e morreu quando caiu da moto. Os médicos disseram que você ficará bem. Só estávamos esperando você acordar

Abraço minha família. Digo que tudo ficará bem mesmo. Não conto sobre onde eu estava esse tempo todo. Será que foi um sonho? Parecia tão real. Olho pela janela e vejo raios de luz do sol. Fico pensando se eu estivera lá mesmo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A Grande Viagem (1ª versão)

A GRANDE VIAGEM (1ª versão)

            Acordei mais cedo do que o de costume naquele dia. Tomei meu café da manhã: leite, ovos e um pão com manteiga. Em seguida, arrumei meu quarto de solteiro, tirei da tomada todos os meus aparelhos eletrônicos e tomei um banho. Coloquei minha roupa favorita de sair e fui para a entrada de minha casa. Uma manhã incomum para aqueles que sabem o que costumo fazer nesse horário.
            Olhei para meu celular e vi as horas. Estava quase na hora. Possivelmente se perguntaram o porquê da minha quebra de rotina nesse dia. Simples: estava de malas prontas para uma viagem para o litoral desse país quente em que vivemos. Mas eu não iria sozinho. Esperava três pessoas chegarem, pois iriamos no carro de uma delas.
            O horário de encontro na minha casa era as sete horas da manhã e já tinham se passado vinte minutos. Enquanto esperava, minha vizinha apareceu. Era uma das pessoas que ia na viagem comigo. Seu nome era Carolina, uma linda ruivinha cuja beleza poderia se chocar com uma morena ou uma loira. Ela chegou do meu lado com CINCO malas!
            - Bom dia Hector. Disse ela com toda naturalidade, parecendo que não estava tão cedo. Ainda me ofereceu um biscoito que logicamente eu aceitei.
            - Oi Carol. Joia? Pra que isso tudo? – perguntando com uma cara espantada.
            - Minhas malas? Só o básico. – Terminou a frase com um riso.
            - Mas é só um fim de semana. – disse eu apontando para a bagagem dela. – Vamos voltar amanhã de tarde, não precisa disso tudo.
            Após isso ela fechou a cara para mim. Reconheci aquele olhar, ela detesta quando falam que faz exageros. Esse olhar era só um sinal de que ela lançaria um longo sermão.
            - Puxa! Cadê aqueles gêmeos? Disse eu como uma forma de distraí-la.
            - Eliza e Lucas? Ah! Sabe como são aqueles dois. Enrolam demais e o irmão dela consegue demorar mais do que ela. -  Desviou o olhar enquanto falava. Minha distração funcionou e ela não lembraria do meu comentário por algumas horas. Eu só espero que se ela voltar a esse assunto que seja já no nosso local de destino.
            - Acho que só daquela vez... – ela continuou - ...que a bisavó deles estava morrendo que saíram correndo pro hospital e um deles esqueceu de pôr a calça antes de sair e quase arrumou confusão com os médicos.
            O episódio foi trágico, pois a bisavó deles faleceu, mas eu segurava para não rir na frente dela sobre as calças. Pedi ainda que não menciona-se isso para os gêmeos.
-           Claro que não vou falar nada! - Disse chateada – Você acha que fico falando da desgraça dos outros...
            Deus do céu! Ela começou um sermão bem longo. Mencionou até um código de ética milenar que nunca ouvi falar, até falar do Egito Antigo que até hoje não sei como entrou nessa história.
            Para minha sorte os gêmeos chegaram no carro dos pais deles. De nós quatro, só eles são menores de idade... pelo menos até terça, quando eu ensinaria Lucas a beber até não querer mais.
            Os pais deles, senhor e senhora Alfredo, perguntaram aonde eu e Carol levaríamos as “crianças”. Dissemos que seria numa praia que eu conhecia e frequentava desde criança. Depois disso eles foram embora, deixando a dupla de enrolados conosco.
            Cada um deles levava duas malas. Os dois tinham a mesma altura, peso, mas Eliza era bem mais bonita do que o seu irmão que sabia disso. Por fim, eu não parava de rir do que tinha na cabeça deles....
            - Tá rindo por quê? Disse Lucas já muito irritado por seus pais chamarem ele e a irmã de crianças.
            - Nada não. Disse Carol segurando o riso. – Vocês tão bem com capacetes de bike da Hello Kit e do Tigot T Tigre. Hahahahaha!!! – Nós dois já não segurávamos mais o riso.
            - Parem de rir! Gritou Eliza levantando o punho.
            O pior era que o menino que estava com o capacete da Hello Kit. Disseram que confundiram os equipamentos. Eu não me importei com isso. Mas a razão daqueles capacetes era que os pais deles eram muito protetores já anos atrás, antes do nascimento dos gêmeos, pois perderam o filho Mateus de três anos que soltou-se da mão do pai e saiu correndo num cruzamento atrás de um pombo...
            Mas enfim, colocamos as malas no carro da Carol. Era tanta mala que a minha teve que ir no banco de trás perto da porta já que Eliza não gosta de sentar na janela. Eu fui dirigindo e Carol estava achando o máximo eu finalmente dirigir o carro novinho dela.
            Já estávamos prontos para sair quando...
            - Espera!!! Gritou Eliza tão alto que me assustou e fez Carol morder a língua por acidente.
            - O que foi menina? – Perguntei eu já irritado e olhando Carol chorar.
            - Preciso ir ao banheiro.
            - Masss por que Vocfe não fhoi antes? – disse Carol vendo gotinhas de sangue nos dedos.
            Acalmei a minha amiga. Abri a porta da minha casa e Eliza correu igual um guepardo para o banheiro. Fiquei perto da porta do carro. Falei para minha amiga se não queria algo para a ferida. Ela disse que estava tudo bem, já segurando o choro. Eliza estava demorando e quanto menos esperei...
            - Vou ao banheiro também. – disse Lucas já saindo correndo para o interior da casa.
            Eu já estava irritado. Queria chegar no litoral antes do almoço e pela demora iriamos chegar quase uma hora depois. Eliza voltou aliviada. Quis saber onde estava Lucas.
            - Ele foi ao banheiro. Disse eu. Você não o viu?
            - Não vi. Acho que ele foi num outro.
            Meu outro banheiro ficava nos fundos e a descarga não funcionava bem. Passou-se alguns minutos e começamos a sentir um cheiro peculiar. Isso era cheiro de sanduíche. Entrei de novo na casa e vi o garoto usando meu micro-ondas.
            - Oh muleque! Q tá fazendo?
            - To com fome. – E eu pensando enquanto isso: “é mais enrolado que cabos de computador”.
            Fiz ele sair com o sanduíche. Já estava sem paciência. Entramos no carro e estávamos saindo já do bairro quando...
            - Eu quero um sanduíche também. Falou Eliza olhando para o irmão.
            - Divide o sanduíche com sua irmã, Lucas. Falou Carol já com a língua um pouco melhor.
            - Eu não vou pegar os germes dele!
            Dito isso o rapaz tacou o resto do sanduíche na cara dela. Nem preciso dizer que começaram uma briga. Parei o carro no acostamento e fiz Eliza sentar na janela com minha mala entre os dois. Voltei ao volante e ditei:
            - Só vamos comer quando chegarmos lá! – todo mundo ficou em silêncio.
            Enfim, viajamos para nosso destino. Uma viagem de verão do qual nenhum de nós vai se esquecer... Mas que viagem longa!!! Não sabem o que eu passei!
            As crianças não paravam quietas. E digo crianças apesar de já terem quase dezessete anos de idade. Começaram a tacar travesseiros uma na outra. Cantaram sem parar músicas de cantores e bandas extremamente bregas e sem nenhuma explicação de como viraram um sucesso. Eu já estava muito irritado, só não ficava mais por que a Carol conseguia me acalmar.
            Por um tempo, a viagem ficou em silêncio. A Carol estava dormindo. E os gêmeos, entediados. Liguei o rádio para distrai-los e para meu desespero estava passando uma música que os dois acabaram de cantar. Desliguei-o e já me sentia entediado. Minha nossa! Era por isso que eu e minha amiga queríamos essa viagem. Ter um objetivo em mente. Fizemos faculdade juntos e após nos formarmos e começarmos a trabalhar a vida ficou muito chata e meio que sem pé nem cabeça.
            Minha amiga conseguiu ficar mais desesperada do que eu sobre isso. Tentou dias atrás fazer uma acrobacia com sua bike numa pista de skate e saiu com o braço ralado. Sofreu alguns pontos, mas nada que fosse sério. Após isso, eu perguntei a ela se não queria ir a praia e ela concordou na hora. Abraçou-me e não queria mais soltar.
            Onde os gêmeos entram nessa história? Bom, a senhora Alfredo é tia da Carol e num telefonema casual acabou descobrindo sobre essa viagem. Os gêmeos estavam perto do telefone e acabaram ouvindo tudo. Imploraram desde então que queriam ir nessa viagem. Ela acabou cedendo. Eu já conhecia os primos dela a dois anos e não fiquei entusiasmado levando adolescentes comigo. Mas eu não podia dizer não e falei a Carol que eles poderiam ir. Os gêmeos nunca foram a uma praia e seus pais iam visitar o avô doente em outro lugar naquele fim de semana.
            Voltando a viagem. Eliza queria dormir mas o irmão estava jogando um jogo de PSP muito barulhento.
            - Desliga isso! Quero dormir! – Estava com cara de sono.
            - Eu tô jogando.
            - Dorme também.
            - Eu não! Só vou sentir sono de noite e essa viagem tá um saco.
            Começaram a discutir de novo. Já estava mais calmo, mas minha ansiedade voltou de novo. Reiniciaram a guerra de travesseiros, só que dessa vez começaram a voar penas por todos os lados. Eu e a Carol ficamos cobertos. O mais incrível era que essa menina não acordava com tanto barulho. Ah como eu queria chegar no hotel e descansar naquele momento. Estávamos quase na metade do caminho. E quando eu achava que não podia piorar, aconteceu! A Eliza pegou uma sacola dela e tirou uma lata de sprite. Agitou e esguichou no Lucas. O refrigerante acabou acertando meus olhos e eu quase perdi o controle do carro.      Quando recuperei a visão, percebi que estava na contramão e consegui desviar de um carro no último segundo. Parei no acostamento. Toda essa manobra fez Carol acordar.
Olhei para trás e vi que o outro carro tinha parado do outro lado da rodovia. Olhei bem e ... era um carro da polícia rodoviária!!! Meu coração estava querendo sair pela boca e estourar ali mesmo na rua. Fiquei nervoso demais. A Carol não parava de perguntar o que estava acontecendo e os gêmeos não paravam quietos.
            Mandei todos calarem a boca quando o guarda chegou.
            Era um guarda enorme e do tipo fortão. Se ele ficasse irritado era capaz de arrebentar o carro inteiro, eu pensei. Ele calmamente pediu os documentos de carro. Entreguei todos: habilitação e identidade. Estava tudo bem segundo ele.
            - O que isso na sua cara? – perguntou ele.
            - Ref... refrigerante senhor. Disse eu já com menos medo.
O policial pegou um pouco do meu rosto e experimentou.
            - Não sinto gosto de refrigerante. Mas não parece bebida alcoólica. Está bem. Dessa vez deixo passar só com uma multa por direção perigosa. Isso só porque o senhor está com sua mulher e seus dois filhos.
            O guarda foi embora e eu fiquei sem graça. Carol não parava de rir e os gêmeos também estavam rindo, mas em silêncio. Segui meu caminho com o pessoal, mas pensando muito no que aconteceu.
            Eu e a Carol casados? Somos amigos desde o ensino médio seria muito estranho. Seria como casar com a própria irmã, se eu tivesse uma. Graças a Deus sou filho único, não tive que dividir minha vida com irmão seria muita bagunça. Enquanto eu pensava, notei que a Carol não parava de me dar olhadas discretas e o rosto dela estava corado. Definitivamente a confusão do policial a fez ficar pensativa.
            Já estava quase chorando quando vi uma placa dizendo que faltava só poucos quilômetros para chegarmos a praia. Animei-me de novo. Estava convencido de que nada mais iria acontecer. Lerdo engano!
            Pooouu!!!
            Fui pro acostamento bem rápido e depois não consegui mais me mover. A Carol olhou para fora do carro enquanto os gêmeos se perguntavam o que teria acontecido. Só me lembro que naquele momento eu quase gritei.
            - Hector? Hector?... Hector! – gritou dando um murro no meu braço.
            - Q foi? – disse eu desorientado.
            - O pneu furou.
            Fiz uma cara de desanimado. Ela queria que eu trocasse, por que segundo ela mesma eu sou um cavalheiro. Eu realmente saí do carro e fui trocar o pneu. O problema foi pegar o estepe. Estava de baixo de todas aquelas malas. Tirei todas elas. Enquanto trocava o pneu os meninos ficaram cutucando um cupinzeiro perto de uma cerca. Só a Carol que ficou perto de mim pacientemente. Consegui terminar a troca. Coloquei o pneu furado dentro do carro e as malas e estava quase dizendo um palavrão quando lembrei que tinha menores comigo. Eu sei que hoje em dia as crianças estão precoces, mas esses dois irmãos são muito ingênuos. Só aos quatorze anos que se interessaram por sexo e outras coisas de adolescentes.
            Voltamos a viagem. Estávamos perto agora e eu tentava entender como que aconteceu tanto trabalho só para fazer uma viagem casual com pessoas que você gosta. Parecia que nada mais iria ocorrer até chegarmos.
            - Ei Hector, como assim eu tô levando malas demais! – eu pensei cedo demais.
            - O que? – fingi que não escutei.
            - Você me escutou. Você disse lá na cidade que tô levando malas demais.
            - Não disse não.
            - Disse sim. Sabe que não gosto quando falam mal de mim! – em tom bravo.
            Pedi para mudarmos de assunto, mas ela insistiu. Não consegui dar uma resposta. Isso a fez ficar fechada e com aquele olhar, mas não houve sermão. Acho que o motivo foi as duas companhias no banco de trás. Seja como for eu estranhei o comportamento dela.
            - Para o carro Hector. Disse Carol.
            Não entendi o porquê, mas ela continuou insistindo até ficar nervosa. Parei no acostamento mais uma vez. Minha amiga saiu do carro e foi para perto de cerca de fazenda. Ficou lá chorando. Pedi aos meninos que ficassem no carro, enquanto conversava com ela.
Cheguei perto e comecei a falar. Era óbvio que o meu comentário das malas não abalaria uma mulher como ela. Sempre foi forte desde o ensino médio. Alguma coisa a incomodava já a muito tempo. Falei para ela o que estava acontecendo.
            - Está muito na cara, não é? – murmurou ela.
            - Conheço você a muito tempo para perceber que algo não está certo.
            - Me leva pra casa. Já tô bem desanimada com muita coisa.
            Foi uma declaração que eu não esperava. Falei com calma e a convenci de que não seria apropriado fazer isso, ainda mais com dois adolescentes que não sabem da situação que se passa ali naquele momento. Entramos no veículo e seguimos o resto da viagem.
            Por várias ocasiões depois pensei que as coisas fossem piorar, mas, para minha alegria, o resto do caminho foi tranquilo.
            Chegamos no hotel. Eu e Carol ficamos num quarto com vista para o mar. Os gêmeos entraram no quarto. Era lindo. Todos nós ficamos vendo aquela paisagem nostálgica. Desfizemos as malas. Deitei na cama e os meninos foram para o quarto ao lado que também tinha vista para a praia.
            Eu estava sozinho com ela. Achei que deveria dizer algo que a animasse. Eu fiz o óbvio: pedi que ela desabafasse. Ela me contou tudo.
            - Você deve saber como é complicado viver numa sociedade. Seguir padrões e tudo mais. – eu simplesmente concordava – desde criança eu era pressionada a agir dessa forma, porque eu sempre agia como eu queria. Sabe sendo eu mesma.
            - Sim eu entendo – já fui assim no passado.
            - É difícil agir como se você fosse única e não ligar para o que os outros falam. – isso é bem uma crise da puberdade, pensei eu – Eu nunca reclamei de nada, todos me criticam pelo que eu faço ou fiz, sei que faço exageros, mas eu só quero ser feliz e honestamente eu não ofendi ninguém com isso, nunca!
            - Então o caso das malas foi só a gota d’água. – conclui eu. A Carol confirmou com um sinal. Realmente é uma mulher forte e que gosta de mim.
            Quanto aos exageros ela era cautelosa demais. Tivemos uma longa conversa. Trocamos desabafos e estávamos ótimos com isso. O início de uma vida pós-adolescência é bem complicado, surgem responsabilidades que não podemos fugir e algumas exigências da sociedade que, a meu ver, são bem questionáveis.
            Apesar de tudo isso, eu e ela aguentávamos. Sendo os problemas necessários ou não, em alguns momentos eles nos deixam a vida vazia e o tédio seria inevitável. Por isso, fizemos essa viagem, para nos reencontrarmos e quebrar a nossa terrível rotina.
            Deixamos o passado para trás naquele quarto, e ninguém notaria nossa mudança já que ela é só nossa. Ela me abraçou e eu a abracei e ficamos assim por um tempo. Sussurrei algo no ouvido dela e ela, no meu. O que aconteceu naquele quarto ficará para sempre naquelas belíssimas quatro paredes.
            Depois de comermos algo, fomos para a praia nos divertir. Tinha muita gente por lá, mesmo não sendo fora de época. Lucas e Eliza ficaram no mar se divertindo. Não brigaram mais. Agiam como dois irmãos unidos afinal. Eu e Carol sentamos na areia e vislumbramos aquele horizonte indescritível. Ficamos abraçados enquanto as ondas iam e voltavam na maré.
            Foi meu melhor final de semana e para ela também. Para aqueles dois nem se fala, não queriam sair da areia. Todos nós queríamos que aquilo durasse para sempre. Até esqueci das confusões que surgiram durante a viagem. Não poderíamos ter coisa melhor.

            O tédio tinha ido embora.