A GRANDE VIAGEM (1ª versão)
Acordei
mais cedo do que o de costume naquele dia. Tomei meu café da manhã: leite, ovos
e um pão com manteiga. Em seguida, arrumei meu quarto de solteiro, tirei da
tomada todos os meus aparelhos eletrônicos e tomei um banho. Coloquei minha
roupa favorita de sair e fui para a entrada de minha casa. Uma manhã incomum
para aqueles que sabem o que costumo fazer nesse horário.
Olhei
para meu celular e vi as horas. Estava quase na hora. Possivelmente se
perguntaram o porquê da minha quebra de rotina nesse dia. Simples: estava de
malas prontas para uma viagem para o litoral desse país quente em que vivemos.
Mas eu não iria sozinho. Esperava três pessoas chegarem, pois iriamos no carro
de uma delas.
O
horário de encontro na minha casa era as sete horas da manhã e já tinham se
passado vinte minutos. Enquanto esperava, minha vizinha apareceu. Era uma das
pessoas que ia na viagem comigo. Seu nome era Carolina, uma linda ruivinha cuja
beleza poderia se chocar com uma morena ou uma loira. Ela chegou do meu lado
com CINCO malas!
-
Bom dia Hector. Disse ela com toda naturalidade, parecendo que não estava tão
cedo. Ainda me ofereceu um biscoito que logicamente eu aceitei.
-
Oi Carol. Joia? Pra que isso tudo? – perguntando com uma cara espantada.
-
Minhas malas? Só o básico. – Terminou a frase com um riso.
-
Mas é só um fim de semana. – disse eu apontando para a bagagem dela. – Vamos
voltar amanhã de tarde, não precisa disso tudo.
Após
isso ela fechou a cara para mim. Reconheci aquele olhar, ela detesta quando
falam que faz exageros. Esse olhar era só um sinal de que ela lançaria um longo
sermão.
-
Puxa! Cadê aqueles gêmeos? Disse eu como uma forma de distraí-la.
-
Eliza e Lucas? Ah! Sabe como são aqueles dois. Enrolam demais e o irmão dela
consegue demorar mais do que ela. -
Desviou o olhar enquanto falava. Minha distração funcionou e ela não
lembraria do meu comentário por algumas horas. Eu só espero que se ela voltar a
esse assunto que seja já no nosso local de destino.
-
Acho que só daquela vez... – ela continuou - ...que a bisavó deles estava
morrendo que saíram correndo pro hospital e um deles esqueceu de pôr a calça
antes de sair e quase arrumou confusão com os médicos.
O
episódio foi trágico, pois a bisavó deles faleceu, mas eu segurava para não rir
na frente dela sobre as calças. Pedi ainda que não menciona-se isso para os
gêmeos.
-
Claro que não vou falar nada! - Disse chateada – Você acha que fico falando da
desgraça dos outros...
Deus
do céu! Ela começou um sermão bem longo. Mencionou até um código de ética
milenar que nunca ouvi falar, até falar do Egito Antigo que até hoje não sei
como entrou nessa história.
Para
minha sorte os gêmeos chegaram no carro dos pais deles. De nós quatro, só eles
são menores de idade... pelo menos até terça, quando eu ensinaria Lucas a beber
até não querer mais.
Os
pais deles, senhor e senhora Alfredo, perguntaram aonde eu e Carol levaríamos
as “crianças”. Dissemos que seria numa praia que eu conhecia e frequentava
desde criança. Depois disso eles foram embora, deixando a dupla de enrolados
conosco.
Cada
um deles levava duas malas. Os dois tinham a mesma altura, peso, mas Eliza era
bem mais bonita do que o seu irmão que sabia disso. Por fim, eu não parava de
rir do que tinha na cabeça deles....
-
Tá rindo por quê? Disse Lucas já muito irritado por seus pais chamarem ele e a
irmã de crianças.
-
Nada não. Disse Carol segurando o riso. – Vocês tão bem com capacetes de bike
da Hello Kit e do Tigot T Tigre. Hahahahaha!!! – Nós dois já não segurávamos
mais o riso.
-
Parem de rir! Gritou Eliza levantando o punho.
O
pior era que o menino que estava com o capacete da Hello Kit. Disseram que
confundiram os equipamentos. Eu não me importei com isso. Mas a razão daqueles
capacetes era que os pais deles eram muito protetores já anos atrás, antes do
nascimento dos gêmeos, pois perderam o filho Mateus de três anos que soltou-se
da mão do pai e saiu correndo num cruzamento atrás de um pombo...
Mas
enfim, colocamos as malas no carro da Carol. Era tanta mala que a minha teve
que ir no banco de trás perto da porta já que Eliza não gosta de sentar na
janela. Eu fui dirigindo e Carol estava achando o máximo eu finalmente dirigir
o carro novinho dela.
Já
estávamos prontos para sair quando...
-
Espera!!! Gritou Eliza tão alto que me assustou e fez Carol morder a língua por
acidente.
-
O que foi menina? – Perguntei eu já irritado e olhando Carol chorar.
-
Preciso ir ao banheiro.
-
Masss por que Vocfe não fhoi antes? – disse Carol vendo gotinhas de sangue nos
dedos.
Acalmei
a minha amiga. Abri a porta da minha casa e Eliza correu igual um guepardo para
o banheiro. Fiquei perto da porta do carro. Falei para minha amiga se não
queria algo para a ferida. Ela disse que estava tudo bem, já segurando o choro.
Eliza estava demorando e quanto menos esperei...
-
Vou ao banheiro também. – disse Lucas já saindo correndo para o interior da
casa.
Eu
já estava irritado. Queria chegar no litoral antes do almoço e pela demora
iriamos chegar quase uma hora depois. Eliza voltou aliviada. Quis saber onde
estava Lucas.
-
Ele foi ao banheiro. Disse eu. Você não o viu?
-
Não vi. Acho que ele foi num outro.
Meu
outro banheiro ficava nos fundos e a descarga não funcionava bem. Passou-se
alguns minutos e começamos a sentir um cheiro peculiar. Isso era cheiro de sanduíche. Entrei de novo na casa e vi o garoto usando meu micro-ondas.
-
Oh muleque! Q tá fazendo?
-
To com fome. – E eu pensando enquanto isso: “é mais enrolado que cabos de
computador”.
Fiz
ele sair com o sanduíche. Já estava sem paciência. Entramos no carro e
estávamos saindo já do bairro quando...
-
Eu quero um sanduíche também. Falou Eliza olhando para o irmão.
-
Divide o sanduíche com sua irmã, Lucas. Falou Carol já com a língua um pouco
melhor.
-
Eu não vou pegar os germes dele!
Dito
isso o rapaz tacou o resto do sanduíche na cara dela. Nem preciso dizer que
começaram uma briga. Parei o carro no acostamento e fiz Eliza sentar na janela
com minha mala entre os dois. Voltei ao volante e ditei:
-
Só vamos comer quando chegarmos lá! – todo mundo ficou em silêncio.
Enfim,
viajamos para nosso destino. Uma viagem de verão do qual nenhum de nós vai se
esquecer... Mas que viagem longa!!! Não sabem o que eu passei!
As
crianças não paravam quietas. E digo crianças apesar de já terem quase
dezessete anos de idade. Começaram a tacar travesseiros uma na outra. Cantaram
sem parar músicas de cantores e bandas extremamente bregas e sem nenhuma
explicação de como viraram um sucesso. Eu já estava muito irritado, só não
ficava mais por que a Carol conseguia me acalmar.
Por
um tempo, a viagem ficou em silêncio. A Carol estava dormindo. E os gêmeos,
entediados. Liguei o rádio para distrai-los e para meu desespero estava
passando uma música que os dois acabaram de cantar. Desliguei-o e já me sentia
entediado. Minha nossa! Era por isso que eu e minha amiga queríamos essa
viagem. Ter um objetivo em mente. Fizemos faculdade juntos e após nos formarmos
e começarmos a trabalhar a vida ficou muito chata e meio que sem pé nem cabeça.
Minha
amiga conseguiu ficar mais desesperada do que eu sobre isso. Tentou dias atrás
fazer uma acrobacia com sua bike numa pista de skate e saiu com o braço ralado.
Sofreu alguns pontos, mas nada que fosse sério. Após isso, eu perguntei a ela
se não queria ir a praia e ela concordou na hora. Abraçou-me e não queria mais
soltar.
Onde
os gêmeos entram nessa história? Bom, a senhora Alfredo é tia da Carol e num
telefonema casual acabou descobrindo sobre essa viagem. Os gêmeos estavam perto
do telefone e acabaram ouvindo tudo. Imploraram desde então que queriam ir
nessa viagem. Ela acabou cedendo. Eu já conhecia os primos dela a dois anos e
não fiquei entusiasmado levando adolescentes comigo. Mas eu não podia dizer não
e falei a Carol que eles poderiam ir. Os gêmeos nunca foram a uma praia e seus
pais iam visitar o avô doente em outro lugar naquele fim de semana.
Voltando
a viagem. Eliza queria dormir mas o irmão estava jogando um jogo de PSP muito
barulhento.
-
Desliga isso! Quero dormir! – Estava com cara de sono.
-
Eu tô jogando.
-
Dorme também.
-
Eu não! Só vou sentir sono de noite e essa viagem tá um saco.
Começaram
a discutir de novo. Já estava mais calmo, mas minha ansiedade voltou de novo.
Reiniciaram a guerra de travesseiros, só que dessa vez começaram a voar penas
por todos os lados. Eu e a Carol ficamos cobertos. O mais incrível era que essa
menina não acordava com tanto barulho. Ah como eu queria chegar no hotel e
descansar naquele momento. Estávamos quase na metade do caminho. E quando eu
achava que não podia piorar, aconteceu! A Eliza pegou uma sacola dela e tirou
uma lata de sprite. Agitou e esguichou no Lucas. O refrigerante acabou
acertando meus olhos e eu quase perdi o controle do carro. Quando recuperei a visão, percebi que
estava na contramão e consegui desviar de um carro no último segundo. Parei no
acostamento. Toda essa manobra fez Carol acordar.
Olhei para trás e vi que o outro carro tinha
parado do outro lado da rodovia. Olhei bem e ... era um carro da polícia
rodoviária!!! Meu coração estava querendo sair pela boca e estourar ali mesmo
na rua. Fiquei nervoso demais. A Carol não parava de perguntar o que estava
acontecendo e os gêmeos não paravam quietos.
Mandei
todos calarem a boca quando o guarda chegou.
Era
um guarda enorme e do tipo fortão. Se ele ficasse irritado era capaz de
arrebentar o carro inteiro, eu pensei. Ele calmamente pediu os documentos de
carro. Entreguei todos: habilitação e identidade. Estava tudo bem segundo ele.
-
O que isso na sua cara? – perguntou ele.
-
Ref... refrigerante senhor. Disse eu já com menos medo.
O policial pegou um pouco do meu rosto e
experimentou.
-
Não sinto gosto de refrigerante. Mas não parece bebida alcoólica. Está bem.
Dessa vez deixo passar só com uma multa por direção perigosa. Isso só porque o
senhor está com sua mulher e seus dois filhos.
O
guarda foi embora e eu fiquei sem graça. Carol não parava de rir e os gêmeos
também estavam rindo, mas em silêncio. Segui meu caminho com o pessoal, mas
pensando muito no que aconteceu.
Eu
e a Carol casados? Somos amigos desde o ensino médio seria muito estranho.
Seria como casar com a própria irmã, se eu tivesse uma. Graças a Deus sou filho
único, não tive que dividir minha vida com irmão seria muita bagunça. Enquanto
eu pensava, notei que a Carol não parava de me dar olhadas discretas e o rosto
dela estava corado. Definitivamente a confusão do policial a fez ficar
pensativa.
Já
estava quase chorando quando vi uma placa dizendo que faltava só poucos quilômetros
para chegarmos a praia. Animei-me de novo. Estava convencido de que nada mais
iria acontecer. Lerdo engano!
Pooouu!!!
Fui
pro acostamento bem rápido e depois não consegui mais me mover. A Carol olhou
para fora do carro enquanto os gêmeos se perguntavam o que teria acontecido. Só
me lembro que naquele momento eu quase gritei.
-
Hector? Hector?... Hector! – gritou dando um murro no meu braço.
-
Q foi? – disse eu desorientado.
-
O pneu furou.
Fiz
uma cara de desanimado. Ela queria que eu trocasse, por que segundo ela mesma
eu sou um cavalheiro. Eu realmente saí do carro e fui trocar o pneu. O problema
foi pegar o estepe. Estava de baixo de todas aquelas malas. Tirei todas elas.
Enquanto trocava o pneu os meninos ficaram cutucando um cupinzeiro perto de uma
cerca. Só a Carol que ficou perto de mim pacientemente. Consegui terminar a
troca. Coloquei o pneu furado dentro do carro e as malas e estava quase dizendo
um palavrão quando lembrei que tinha menores comigo. Eu sei que hoje em dia as
crianças estão precoces, mas esses dois irmãos são muito ingênuos. Só aos
quatorze anos que se interessaram por sexo e outras coisas de adolescentes.
Voltamos
a viagem. Estávamos perto agora e eu tentava entender como que aconteceu tanto
trabalho só para fazer uma viagem casual com pessoas que você gosta. Parecia
que nada mais iria ocorrer até chegarmos.
-
Ei Hector, como assim eu tô levando malas demais! – eu pensei cedo demais.
-
O que? – fingi que não escutei.
-
Você me escutou. Você disse lá na cidade que tô levando malas demais.
-
Não disse não.
-
Disse sim. Sabe que não gosto quando falam mal de mim! – em tom bravo.
Pedi
para mudarmos de assunto, mas ela insistiu. Não consegui dar uma resposta. Isso
a fez ficar fechada e com aquele olhar, mas não houve sermão. Acho que o motivo
foi as duas companhias no banco de trás. Seja como for eu estranhei o
comportamento dela.
-
Para o carro Hector. Disse Carol.
Não
entendi o porquê, mas ela continuou insistindo até ficar nervosa. Parei no
acostamento mais uma vez. Minha amiga saiu do carro e foi para perto de cerca
de fazenda. Ficou lá chorando. Pedi aos meninos que ficassem no carro, enquanto
conversava com ela.
Cheguei perto e comecei a falar. Era óbvio que
o meu comentário das malas não abalaria uma mulher como ela. Sempre foi forte
desde o ensino médio. Alguma coisa a incomodava já a muito tempo. Falei para
ela o que estava acontecendo.
-
Está muito na cara, não é? – murmurou ela.
-
Conheço você a muito tempo para perceber que algo não está certo.
-
Me leva pra casa. Já tô bem desanimada com muita coisa.
Foi
uma declaração que eu não esperava. Falei com calma e a convenci de que não
seria apropriado fazer isso, ainda mais com dois adolescentes que não sabem da
situação que se passa ali naquele momento. Entramos no veículo e seguimos o
resto da viagem.
Por
várias ocasiões depois pensei que as coisas fossem piorar, mas, para minha
alegria, o resto do caminho foi tranquilo.
Chegamos
no hotel. Eu e Carol ficamos num quarto com vista para o mar. Os gêmeos entraram
no quarto. Era lindo. Todos nós ficamos vendo aquela paisagem nostálgica.
Desfizemos as malas. Deitei na cama e os meninos foram para o quarto ao lado
que também tinha vista para a praia.
Eu
estava sozinho com ela. Achei que deveria dizer algo que a animasse. Eu fiz o
óbvio: pedi que ela desabafasse. Ela me contou tudo.
-
Você deve saber como é complicado viver numa sociedade. Seguir padrões e tudo
mais. – eu simplesmente concordava – desde criança eu era pressionada a agir
dessa forma, porque eu sempre agia como eu queria. Sabe sendo eu mesma.
-
Sim eu entendo – já fui assim no passado.
-
É difícil agir como se você fosse única e não ligar para o que os outros falam.
– isso é bem uma crise da puberdade, pensei eu – Eu nunca reclamei de nada, todos
me criticam pelo que eu faço ou fiz, sei que faço exageros, mas eu só quero ser
feliz e honestamente eu não ofendi ninguém com isso, nunca!
-
Então o caso das malas foi só a gota d’água. – conclui eu. A Carol confirmou
com um sinal. Realmente é uma mulher forte e que gosta de mim.
Quanto
aos exageros ela era cautelosa demais. Tivemos uma longa conversa. Trocamos
desabafos e estávamos ótimos com isso. O início de uma vida pós-adolescência é
bem complicado, surgem responsabilidades que não podemos fugir e algumas
exigências da sociedade que, a meu ver, são bem questionáveis.
Apesar
de tudo isso, eu e ela aguentávamos. Sendo os problemas necessários ou não, em
alguns momentos eles nos deixam a vida vazia e o tédio seria inevitável. Por
isso, fizemos essa viagem, para nos reencontrarmos e quebrar a nossa terrível
rotina.
Deixamos o passado para trás naquele
quarto, e ninguém notaria nossa mudança já que ela é só nossa. Ela me abraçou e
eu a abracei e ficamos assim por um tempo. Sussurrei algo no ouvido dela e ela,
no meu. O que aconteceu naquele quarto ficará para sempre naquelas belíssimas
quatro paredes.
Depois
de comermos algo, fomos para a praia nos divertir. Tinha muita gente por lá,
mesmo não sendo fora de época. Lucas e Eliza ficaram no mar se divertindo. Não
brigaram mais. Agiam como dois irmãos unidos afinal. Eu e Carol sentamos na
areia e vislumbramos aquele horizonte indescritível. Ficamos abraçados enquanto
as ondas iam e voltavam na maré.
Foi
meu melhor final de semana e para ela também. Para aqueles dois nem se fala,
não queriam sair da areia. Todos nós queríamos que aquilo durasse para sempre.
Até esqueci das confusões que surgiram durante a viagem. Não poderíamos ter
coisa melhor.
O
tédio tinha ido embora.