quinta-feira, 25 de junho de 2015

O LABIRINTO ARDENTE

Eu não me lembro de como cheguei aqui. Minha cabeça está zonza. Não parece que estou ferido. Levanto-me. Não consigo ficar de pé. Para andar, tenho que usar as mãos também. Estou num canto com uma cama improvisada. Avisto alguém e essa pessoa diz para eu ir aonde ela está. Começo a andar. O lugar deixa o peso do meu corpo muito grande. É difícil de me mover.
Olho-me no espelho e descubro que sou uma espécie de cachorro.... Não, sou uma raposa. Reconheço as patas e o focinho. Minha pelagem é alaranjada e tenho olhos amarelos. O que está havendo aqui?
Vou até lá. É um sujeito de aparência muito estranha. Usa roupas do século das luzes. E o rosto é deformado. Não parece de um humano ou de um animal. Meu Deus, este lugar é muito quente e abafado, mas não há teto e está de noite. As paredes são feitas de pedras retangulares escuras.
- Quem é você, pessoa elegante? – eu pergunto.
- O meu nome não é importante, mas sim o que você deve fazer neste lugar.
- E o que seria?
- Você está num labirinto e não tardará para que ele se torne completamente fechado e inabitável. Vê aquela árvore lá longe? – ele aponta para lá longe no labirinto.
- O que é aquela árvore gigantesca?
- Ela é a Árvore da Mudança. Se chegar lá e comer um de seus frutos a tempo, estará a salvo. Precisa percorrer este labirinto escuro e desorientador.
Não confio nas palavras dele. No entanto, talvez eu tenha respostas se chegar lá. Antes de ir, eu faço mais uma pergunta:
- Há alguém naquela árvore?
- Ninguém está, mas não posso ter certeza do resto do labirinto. Só não se preocupe, é apenas você que está na missão de chegar até lá.
Eu parto finalmente, correndo como uma raposa experiente. O lugar é traiçoeiro e muitos pontos são confusos. Só posso ver as estrelas e a árvore lá longe, nada mais. O calor ainda piora minha concentração e parece que ele está aumentando. Estou andando em círculos, posso sentir isso. Meu temor é que eu fique aqui até morrer.
Alguns ratos pequenos andam neste lugar procurando comida, mas nada encontram. Um deles desaparece na parede. Fico espantado, pois não uma entrada para ele ter passado. Vou até lá. Ando calmamente e toco meu focinho lá. Começo a atravessá-la. Chego ao outro lado. Realmente é um lugar traiçoeiro. Penso em subir pelas paredes, mas uma força tremenda me impede. Ela começa a me puxar para o chão. Meu peso parece que dobrou ou triplicou. Está difícil de andar ou correr mais ainda. Não estava assim antes. É como se quisessem dificultar as coisas.
Exploro mais o lugar. O cheiro é muito estranho. Meu focinho não consegue diferenciar os cheiros aqui. Tento me orientar pelas estrelas, mas elas parecem mudar de posição a cada minuto. Só posso me orientar pela árvore que está visível sempre. O calor continua sendo insuportável. Já estou suando.
A minha busca me leva a uma parte em que não é possível mais ver a árvore. Há um teto e está muito escuro. Entro e minha visão demora um pouco para se acostumar com a escuridão. O calor é maior aqui, preciso andar logo. Tropeço em alguns momentos de vez em quando, há degraus aqui que me fazem subir ou descer. Minha visão noturna está melhorando.
Chego num lugar da casa em que há muito espaço. Espanto-me ao ver um lugar completamente surreal. Há escadas no teto e nas paredes. É como se a gravidade se comportasse de forma estranha aqui. Corro por elas. A noção espacial aqui é muito confusa e muitas das paredes, chão e teto são falsos. Não sei por quanto tempo conseguirei aguentar.
Tento arranhar por onde passo. Mas o concreto é muito forte e é escuro de mais para eu ver detalhes. Começam tremores. A temperatura volta a aumentar. Corro mais rápido. Chego a um local em que é possível ver o céu novamente. Saio de lá. É outro local do labirinto. Localizo a árvore. Está muito longe ainda. Sigo para lá.
O meu peso continua aumentando. É uma luta para poder ficar de pé. Continuo caminhando. Avisto vários ossos no local. Imagino que mais pessoas tentaram chegar até aquela torre onde a árvore está bem no topo. Percebo que alguns dos ossos foram roídos. Ruídos ecoam e não são de tremores. Meu faro detecta um cheiro estranho, mas de seres vivos. Ando mais um pouco, até a fonte dos ruídos. Olho pela beirada da parede.
Que visão horrível! São pequenos monstros que vejo. Carnívoros, comendo restos de ossos. São de cor escura e tem olhos avermelhados. Garras bem afiadas. Preciso passar para o outro lado do caminho perpendicular em que estou sem que me vejam. Ando calmamente. Minha respiração se acelera, meu coração dispara. Estou a poucos passos da morte se for visto.
Para minha infelicidade, sou visto pelas três criaturas. Saio correndo com elas no meu encalço. Vejo mais delas aparecendo. Algumas até estão pulando os muros, como se a força do lugar não existisse para elas. Outras aparecem de paredes falsas.
Estou numa situação muito complicada. O calor só está aumentando, assim como o peso do corpo. Os tremores voltaram mais fortes. O lugar começa a ter rachaduras pequenas. Um desses monstros me acerta e começo a cair no chão. Levanto-me rapidamente e por sorte não sou mordido na cauda.
Chego num local em que há uma espécie de rampa e ao redor dela um imenso buraco sem fundo. Ela começa a rachar e salto para não morrer. Deslizo por ela. Logo depois vem aqueles bichos também deslizando e rindo. Eles têm uma gargalhada diabólica e sádica. Estou ficando mais apavorado.
A rampa começa a desmoronar conosco. Eu consigo cair na beirada do outo lado. As criaturas caem no buraco. Nenhuma se salvou. Eu subo com dificuldade, quase escorrego por causa da força de atração poderosa. Eu consigo ir adiante. Os tremores estão piorando agora. Sinto que tudo vai desabar para o fundo deste lugar. Preciso correr.
O lugar agora tem paredes bem altas e mais claras. Há pouca luz saindo de feixes do chão, mas não iluminam muito. Não consigo ver a árvore! O meu tempo está acabando e não sei quanto falta para chegar até esse lugar. Exploro mais o lugar. A temperatura aumenta mais e continuamente agora. Estou começando a me sentir mal e com poucas forças. Tenho necessidade de continuar, pois preciso viver por um motivo que ainda desconheço. Eu sinto isso.
Volto a correr, usando minhas últimas forças. O topo das paredes começa a desabar. Lava começa a brotar do chão. Salto para não ser pego. Os tremores pioram. Tento me equilibrar. Mais daquelas criaturas aparecem. A lava pega algumas, mas outras usam restos de ossos e as jogam contra mim.
Sinto que estou perto. Vejo um lance de escadas que levam para cima. Começo a subir com o lugar todo desmoronando. Ao chegar do outro lado, vejo que estou bem de frente para a torre. Ela é bem escura e alta e não há muitos lugares para se agarrar e escalá-la. As criaturas estão se aproximando. Começo a subir.
A escalada é muito árdua. Há o peso só aumentando e o calor também. Ela também está rachando. Não posso escorregar, senão caio. As criaturas tentam subir. Por sorte, elas escorregam muito. Depois de um tempo, eu olho ao redor e vejo que o horizonte foi preenchido pela lava. Ela também está chegando à torre.
Subo mais um pouco e começo a ver que o local pelo horizonte é bem arredondado, quase como se fosse uma esfera perfeita. A torre começa a se inclinar, acelero a escalada. Meus dedos estão doendo, assim como todo o meu corpo. O suor é grande e a fadiga também. No entanto, eu devo continuar. Preciso de respostas.
Eu chego ao pé da raiz da árvore. Ela é colossal. O tronco é dourado e as folhas bem verdes. Fico fascinado com ela. Infelizmente minha alegria dura pouco, as pedras da torre começam a aquecer demais e queimam minhas patas. Salto para o tronco e subo até o topo. As folhas da árvore começam a queimar. Vejo os frutos. São alaranjados e no formato de losangos. Também começam a pegar fogo. Subo mais até o topo.
Avisto o último fruto, justo quando a torre começa a cair no magma. Corro até lá pelos galhos já secos e quentes. Pego nele e dou uma mordida sem hesitar. Nada acontece. Eu devoro-o. Espero enquanto a torre desaba. Poucos segundos para eu ser queimado na lava. Meu corpo, de repente, começa a desaparecer em faixas de luz. Eu sumo por completo quando a torre finalmente desmorona.
Estou sendo transportado para longe do local para o céu. Olho para atrás e percebo onde eu estava. Uma esfera perfeita gigante, incandescente e com um brilho de cegar os olhos. Vejo jatos de lava subirem em forma de arcos e descerem. Rachaduras luminosas surgirem e sumirem na superfície e algumas manchas escuras gigantescas.... Oh meu Deus! Era uma Estrela! Eu estava numa estrela, como isso é possível? Não sabia como não morri desde o início, mas havia dúvidas de onde eu estava. Só não sei em que estrela eu estava.
Estou voando pelo espaço sideral a uma velocidade impressionante. Minha visão começa a escurecer. Não sinto mais nada, nem cheiro nem ouço mais. Será que morri?
Acordo de repente e me vejo num local bem calmo. É um quarto e estou sobre uma cama de lençóis brancos. Percebo que estou num hospital. Olho para minhas mãos. Não sou mais uma raposa. Ai! Minha cabeça dói muito. Ela está enfaixada. Acho que sofri um acidente e não lembro.
Vejo duas crianças num sofá acordarem. Elas me vejam e se emocionam. Correm até mim.
- Papai! Papai! – as duas gritam, me abraçam.
Minha memória começa a voltar aos poucos. Eu sofri um acidente. Fui atropelado. Uma mulher chega no quarto. É minha esposa e chora de felicidade. Vem me abraçar também.
- Quanto tempo fiquei apagado?
- Uns seis dias. Ficou em coma depois de uma moto o atropelar. O motoqueiro estava bêbado e morreu quando caiu da moto. Os médicos disseram que você ficará bem. Só estávamos esperando você acordar

Abraço minha família. Digo que tudo ficará bem mesmo. Não conto sobre onde eu estava esse tempo todo. Será que foi um sonho? Parecia tão real. Olho pela janela e vejo raios de luz do sol. Fico pensando se eu estivera lá mesmo.